Policiais militares da Baixada Fluminense envolvidos na venda ilegal de serviços de segurança privada a comerciantes contavam com uma espécie de “Serviço de Atendimento ao Cliente (SAC)”, conforme apurou o Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública (Gaesp) do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ). De acordo com a investigação, esse canal de contato servia para que os chamados “padrinhos” — como os PMs se referiam aos seus contratantes — pudessem acionar os policiais e solicitar presença ostensiva nos estabelecimentos após o pagamento combinado.
Em uma das mensagens trocadas entre uma funcionária de um posto de gasolina e um dos militares, ela exige o patrulhamento especial após quitar o valor da “proteção”:
“Depois pede para o teu pessoal dar uma parada aqui, porque só vocês encostando aqui já inibe”, escreveu.
O policial respondeu:
“Falei com os amigos aqui.”
Detalhes da investigação
Segundo o MPRJ, os policiais militares foram denunciados por fornecer segurança armada a comerciantes durante seus turnos de serviço, utilizando fardas e viaturas oficiais. As vítimas do esquema, comerciantes locais, eram pressionadas a aceitar a proposta e pagar mensalmente valores que os PMs chamavam de “merenda”. Os “padrinhos” incluíam estabelecimentos como restaurantes, mercados, lanchonetes, farmácias, clínicas, postos de gasolina, depósitos, universidades, feiras, festas populares, serviços de transporte, funerárias e até um posto do Detran.
Os crimes ocorreram entre os anos de 2020 e 2024, enquanto os envolvidos estavam lotados, principalmente, no 39º BPM (Belford Roxo).
— O que se verificou foi a formalização de uma lógica perversa, em que agentes públicos pagos com recursos do Estado passaram a oferecer segurança como um privilégio exclusivo. Isso compromete gravemente o planejamento de policiamento e o uso adequado dos recursos da corporação. Os policiais deslocavam viaturas para atender demandas privadas, desorganizando o planejamento operacional e enfraquecendo a segurança pública — destacou o promotor Fabio Corrêa, coordenador do Gaesp.
Prisões e nomes dos envolvidos
Na ação deflagrada na terça-feira, 9 dos 11 mandados de prisão foram executados. Foram presos:








Na quarta-feira (02), Marcelo Ferreira Chagas da Silva (soldado, 41 anos) se apresentou na 8ª Delegacia de Polícia Judiciária Militar (DPJM) e foi encaminhado à 1ª DPJM.
Felipe de Paula Lameira da Silva (cabo, 37 anos), também do 39º BPM, permanece foragido. Ele ingressou no esquema no segundo semestre de 2021.
Atuação criminosa
A denúncia aponta que todos os integrantes podiam desempenhar funções diversas dentro do grupo, como:
- Recrutamento de novos “padrinhos”;
- Coleta dos pagamentos;
- Atendimento direto aos comerciantes, realizando o patrulhamento direcionado;
- Distribuição dos lucros arrecadados.
Além disso, há indícios de que o grupo também extorquia traficantes locais em troca de vantagens ilícitas.
Na operação, foram apreendidos 12 celulares, munições e uma pequena quantidade de drogas.
Responsabilização e resposta da PM
Os policiais foram denunciados pelos crimes de organização criminosa, corrupção passiva e peculato — quando um servidor se apropria de bens públicos ou usa seu cargo para proveito pessoal.
A Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro declarou que atua firmemente contra crimes cometidos por seus agentes e que não tolera desvios de conduta. A corporação informou que lançou, em 2023, um Plano de Integridade com foco na prevenção de fraudes, corrupção e condutas indevidas. Também destacou que os agentes envolvidos serão responsabilizados conforme as provas forem confirmadas.
Fonte: O Globo | Reprodução
https://oglobo.globo.com/rio/noticia/2025/07/03/esquema-de-venda-de-seguranca-privada-por-pms-contava-com-servico-de-atendimento-ao-cliente-sac-revela-mprj.ghtml











