A bomba relógio da segurança clandestina em supermercados

O assassinato brutal de Rodrigo Boschen, de 22 anos, por uma barra de chocolate no supermercado Muffato de Curitiba, não é apenas mais uma tragédia isolada. 

É o sintoma de uma epidemia silenciosa que assombra o setor supermercadista brasileiro: a contratação irresponsável de segurança clandestina que transforma estabelecimentos comerciais em verdadeiras bombas-relógio da violência.

A investigação revelou de forma primária que a RTA Rota Sistema, empresa contratada pelo Muffato, operava completamente à margem da lei. 

Sem credenciamento da Polícia Federal, utilizava CNPJs fraudulentos e subcontratações ilegais, substituindo vigilantes profissionais por “leões de chácara” sem qualquer formação. 

O resultado? Um jovem morto com sinais de tortura e pés amarrados, vítima de uma abordagem que extrapolou todos os limites legais e humanos.

Este caso escancara uma realidade sombria do varejo brasileiro. A falsa economia da segurança clandestina, que promete reduzir custos em 30 a 40%, cobra um preço impagável em vidas humanas e destruição de reputações. 

O setor supermercadista, com seu alto fluxo de pessoas e situações constantes de conflito, torna-se especialmente vulnerável quando opta por soluções irregulares de segurança.

A LISTA VERGONHOSA

A lista de tragédias é extensa e vergonhosa. Em 2020, o Carrefour de Porto Alegre protagonizou cenas de horror quando seguranças assassinaram um cliente negro. Um ano depois, o Atakarejo de Salvador viu dois homens perderem a vida por suspeita de furto de carne, resultando em indenizações de R$ 20 milhões.

Em outubro de 2022 em uma das unidades da rede Unisuper em Canoas/RS duas pessoas foram barbaramente torturadas por funcionários de uma empresa clandestina, acompanhados pelo gerente e subgerente do supermercado.

Agora, em 2025, o Muffato entra para esta galeria macabra com um jovem torturado e morto por um chocolate.

O QUE TRANSFORMA SUPERMERCADOS EM CENÁRIOS DE VIOLÊNCIA EXTREMA? 

A resposta está na combinação letal entre economia irresponsável e cultura do “vale tudo“. 

Empresas clandestinas de segurança, sem custos trabalhistas formais e sem investimento em treinamento, oferecem mão de obra despreparada que confundem prevenção de perdas com justiçamento. 

Perseguições em via pública, uso desproporcional de força e a mentalidade de “fazer justiça com as próprias mãos” tornam-se práticas rotineiras. Muitos agravadas com a participação de policiais, como foi o caso do Carrefour e do Unisuper.

A Polícia Federal é categórica: nenhum estabelecimento comercial pode contratar pessoas, direta ou indiretamente, para perseguição de suspeitos em via pública. O profissional legalmente habilitado é exclusivamente o vigilante credenciado, com vínculo formal em empresa igualmente autorizada. 

Qualquer arranjo fora deste padrão é ilegal e criminoso.

Com a entrada em vigor da Lei 14.967/24 e o novo decreto regulamentador, o cerco se fecha dramaticamente. 

Supermercados flagrados com segurança clandestina enfrentam multas que podem chegar a R$ 90 mil reais, além de responsabilização criminal dos gestores, a exemplo dos gerentes do Unisuper e do Carrefour.

A matemática da clandestinidade não fecha. De um lado, a promessa de economia inicial. Do outro, o risco de processos milionários, destruição irreversível da reputação e responsabilidade criminal.

O caso Muffato exemplifica perfeitamente: a tentativa de economizar alguns milhares de reais resultará em milhões em indenizações, processos criminais e uma mancha indelével na marca.

A ÚNICA SAÍDA

A única saída segura para o setor passa pela profissionalização completa dos serviços de segurança. Redes de supermercados devem contratar exclusivamente empresas credenciadas pela Polícia Federal, exigir documentação completa e atualizada, implementar protocolos rígidos de não-violência e investir pesadamente em tecnologia de prevenção. 

Outra alternativa é considerar constituir a segurança orgânica autorizada pela Polícia Federal.

Como bem resumiu João Soares, presidente do Sindicato dos Vigilantes: “Um vigilante cursado não faz esse tipo de coisa. Devido a um chocolate tira-se uma vida?” 

A tragédia do Muffato nesse momento deveria servir como despertar definitivo para um setor que insiste em brincar com fogo. Cada gestor que mantém segurança clandestina carrega nas mãos uma bomba-relógio prestes a explodir.

A pergunta que fica é simples e devastadora: quantas barras de chocolate valem uma vida humana? 

Quantos processos milionários cabem na falsa economia da clandestinidade? 

Para o setor supermercadista brasileiro, chegou a hora de escolher entre a responsabilidade social e empresarial ou continuar alimentando uma máquina de tragédias anunciadas. 

O relógio está correndo, e a próxima manchete pode ter o nome de qualquer estabelecimento que ainda insiste em apostar na roleta russa da segurança clandestina.

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Pedrosa Mentoria

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